sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Dicas para comemorar Samhain Sabbath (in 2011)

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Samhain é tempo de renovação, de reencontro. É a morte que se aproxima e isso não é ruim, pois é o Ciclo que se finda e recomeça. É o movimento de entrar dentro de nós mesmos, avaliarmos aquilo que fizemos de bom e de ruim, mudar o que tem que ser mudado, melhorar o que tem que ser melhorado, manter o que tem que ser mantido. É período de reflexão e paz.

É uma jornada em busca de conhecimento e amor, e esse deve ser o nosso movimento. Descer até dentro de nós mesmos em buscas de respostas, respostas que jazem em nosso mais profundo íntimo, como a parte pura que nos conecta ao Todo.

Não nos deixemos açoitar pela Morte, a convidemos para ir conosco, sem medo, com amizade e sinceridade... Pois é assim que nos prepararemos para o recomeço, para a nova plenitude que se aproximará muito em breve. Nesse movimento, é hora de conscientizar de quem somos, o que fazemos como quem somos e o que temos, como prosperá-lo e mantê-lo. O passado deve ficar no passado, mas jamais deverá ser esquecido, pois é o passado que forma o hoje e é do hoje que moldamos o futuro; devemos dar valor ao que tem de ser valorado e descartar ao que se deve ser descartado.

Também é noite dos mortos, é o momento de celebrarmos a importância e o saudosismo que temos pelos antepassados. Momento de honrá-los com carinho e guiá-los em paz até o Outro Mundo. Para os que se sentirem à vontade, pode-se usar fotografias ou presentes antigos desses antepassados, fazer visitas a seus túmulos ou mesmo ofertar-lhes flores, presentes, comidas ou a luz da chama de uma vela. Mas acima de tudo, é um momento alegre. Não vejamos a morte com a tristeza que nos cabe pela ausência, vejamo-na como a porta sagrada que se abre para a renovação, para com completude e totalidade, para tudo aquilo que excede o físico e material, para o ser verdadeiro.

É momento de festa, é um dia que não tem tempo, é um tempo que não tem dia, são portais que se abrem e véus que atenuam, mas, para além de tudo isso, é um novo ano que se anuncia. Que o entardecer seja irreverente e honrado, para despedir do que já se foi, agradecer pelo que se conquistou. Que a noite seja plena, na companhia dos mortos santos e de todos os Deuses, que nela possamos adentrar em nosso íntimo para alcançar tudo o que deve ser alcançado para além de toda a complexidade da vida, na simplicidade do espírito. Mas que seja o amanhecer verdadeiramente abençoado! Pelo poder da renovação que os raios do Sol possam nos trazer a paz e o anúncio de um ano ainda mais próspero e formidável que o que se passou, saudando em honra a todos os Deuses e seres, e guiando em paz o mortos até sua próxima casa; para que a morte do Deus seja mais do que uma passagem, mas se torne uma verdade, uma continuidade e a renovação plena.


Comemorar esse dia pode ser bem simples ou mais complexo. Você o poderá fazer com uma simples meditação a noite, buscando valorizar e pesar seu passado para planejar seu futuro, agradecendo o que conquistou e correndo atrás daquilo que ainda precisa ser conquistado.

Os antigos costumavam fazer uma grande celebração nesse dia, usando máscaras para que os espíritos se sentissem mais à vontade entre os humanos (a matéria espiritual pode não ter a mesma forma humana e, às vezes, parecer feia e assustadora em nosso mundo), enfeitavam a casa com as cores preto (o mistério, a morte) e laranja (o novo início, o anúncio). A lanterna abóbora enfeitada serve para manter os maus espíritos fora, para guiar a todos em paz para o mundo dos Mortos. Os doces ofertados aos mortos no banquete e compartilhado pelos humanos servem para alegrar a jornada daqueles que partiram dando a eles o gosto da vida, os demais alimentos (como frutas) servem para satisfazer os mortos e dar-lhes forças para continuar a jornada.

Também é um momento próspero para a prática de adivinhações, de conselhos e contações de histórias e lendas. Momento de se meditar e buscar respostas. Em geral, os antigos faziam dessa noite de meditação, festa e vigília, até que o sol nascesse trazendo consigo um novo e próspero ano.

Por isso, fiquem à vontade para montarem suas comemorações, um ato simples pode dizer muito quando feito de coração. Mas deixo aqui minha dica.


Tome um bom banho de ervas ao pôr-do-sol desse dia, eu recomendo muito o Absinto (Artemísia, ou Losna), mas a Alfazema pode cair muito bem para a data também.

Enfeite sua casa, você, sua vida. Alegre-se e faça tudo com muito carinho. Se tiver mais pessoas que gostariam de participar, convide-as, também é momento de confraternização. Em primeiro momento, ponha a mesa de um banquete (lanche) bem adocicado, com um prato extra (que será ofertado aos mortos). A mesa posta, faça uma meditação bem prolongada, se possível sob a luz do luar, ou ao ar livre. Pense profundamente em sua vida, em seu ano, naquilo que pretende mudar, no que quer manter, no que deseja conquista e no que deve se focar e aperfeiçoar. Em seu íntimo, agradeça por tudo o que te foi dado ou conquistado. E junto, pegue consciência de si, de seus defeitos e qualidades, é momento de mudar também a si mesmo. Deixe o passado passar, perdoe o que deve ser perdoado, mas nunca se esqueça do passado ou desvalorize suas ações, ele faz o que somos hoje, mas não viva dele, seja bom ou ruim, ele deve passar.

Feito a meditação, use seu método de adivinhação preferido para saber o que te espera nesse próximo ano (como retirando apenas uma carta dos arcanos maiores do tarot, por exemplo). A grande dica para esse dia é usar uma bacia prateada, preta ou transparente (de preferência que sirva como espelho), cheia de água, colocada sob o Luar e com o coração olhe o espelho da bacia, tente ver na água a mensagem da Lua (isso chama-se “puxar a Lua para baixo).

Enfim, acenda uma vela preta ou branca (se possível de 7 dias, se não pode ser outra), num canto da janela de sua casa, ou do lado oeste de seu quintal, ou algo do tipo em honra aos mortos, para mostrar-lhes o caminho. A princípio, apenas acenda-a.

Acenda dois caldeirões (ou duas velas, uma preta e uma branca) e queime no primeiro tudo aquilo que você quer que vá embora (escrito em um papel, com objetos simbolizando ou apenas em mente), depois queime no segundo tudo o que você quer conquistar nesse próximo ano.


“Eu queimo e extirpo estes aspectos das nossas vidas
Nesta noite de Samhain, sagrada e querida
Que saiam de nós em vitória
E do passado só reste a memória!” (*)[1]


Por fim, sente-se a mesa em silêncio, ainda em meditação, e coma e beba com alegria e paz, mas evite falar, mantenha a concentração e o silêncio. Dê um pedaço de tudo o que você pegar para si para os mortos, deixando um pedaço no prato extra. Após a refeição, coloque o prato de oferenda junto a vela na janela, então abençoe o prato e guie os mortos em paz para o outro mundo:

“Ó fruto que da morte e da vida é sinal,
Fruto que alivia a luta mortal,
A fome dos mortos trate de aliviar,
Até que eles possam, enfim, descansar.
Que cada um fique bem alimentado,
Até que a jornada tenha se completado.” (*)

“Ó chama que queima tão iluminada,
Nesta noite seja um farol a brilhar
Para os mortos, ilumine a estrada
De modo que o caminho eles possam enxergar,
Conduza-os até a Terra do Verão Eterno
E brilhe até que os Deuses Negros os acolham em um abraço fraternos
E que a paz eles tragam a elas com o seu reluzir,
Para que elas possam descansar e dormir!” (*)


Depois desse momento, ponha-se em festa e vigília até o amanhecer, ou vá dormir em paz.

Ao amanhecer do dia primeiro de novembro, saúde o novo ano com muita alegria e ponha-se a viver. Mas não esqueça que as regências de Samhain que se iniciou na noite anterior, diz de um período de paz, reflexão e morte (renovação), por isso esteja e seja alegre, mas com paz e calma.



Paz e Bênçãos!
Feliz Samhain!
Feliz Ano Novo!





[1] Orações retiradas de MORRISON, Dorothy. Samhain. IN A Arte – O Livro das Sombras de uma Bruxa [págs. 193 a 200]. 2ª edição. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Samhain Sabbath

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É o principal festival da Roda do Ano, o grande feriado da bruxaria, e também meu favorito. É regido pela morte e por isso suas honras se dão aos Deuses Negros (lembrando que na magia a cor negra não está relacionada à maldade, isso seria racismo, mas ao mistério, ao oculto).

Vou colocar um pequeno texto a respeito desse festival e de algumas divindades de sua regência retirado de um roteiro para a comemoração de um festival de Halloween que eu executarei nesse ano de 2011; mas deixo a promessa de postar mais e inclusive dicas de como comemorá-lo. Acho que dessa forma nós podemos iniciar a discussão desse festival e de suas energias, que, em geral, se relacionam com a morte, com o entrar dentro de si mesmo, e preparar para recomeçar. É o tempo que você tira, nem para os outros nem para as coisas, mas para a si mesmo, que hoje em dia, temos o hábito de achar que é desperdiçado...

Samhain (sau-heim), que significa “a morte do sol” é comemorado em 31 de outubro a partir de All Hallows Eve (Véspera de Todos os Deuses) passando por Halloween (Noite Santa: Noite dos Mortos); esse dia é considerado um Dia Fora do Tempo, pois foi dia 30 de outubro o último dia do Ano; enquanto se mostra a preparação para o Ano Novo que inicia em 1 de novembro. É em Halloween quando o véu que separa e distingue as coisas e os mundos fique mais tênue, quase dissolvido facilitando o contado com outros mundos, a ação mágica e até a viagem astral a outros reinos e mundos. Ao se entender a passagem e o que significa a Morte, entende-se Halloween.

Na noite de Samhain, a linha entre os mundos fica mais tênue e, com isso, os espíritos ancestrais podem vagar pela Terra livremente. Por esta razão, acendiam-se lanternas em abóboras (frutos da época), com carrancas e rostos monstruosos nelas, do lado de fora das casas: para que os espíritos conseguissem se guiar pela luz e por estes rostos que as pessoas julgavam ser “familiares” para eles, e assim encontrarem seu caminho de volta antes da manhã chegar. Por essa razão, também, as pessoas costumavam sair de suas casas nessa noite usando máscaras – inclusive as crianças. Para que os espíritos se sentissem mais “à vontade” e não decidissem assombrar ninguém.

A mitologia conta que nessa noite Cailleach, já poderosa e livre ao aprisionar Brigit dentro de uma montanha, encontra seu Cetro mágico e espalha com ele o frio e a morte pela terra, ensinando os homens lições sobre solidariedade, irmandade e cuidado. Dizem também que nesse momento ela fica perambulando pelas estradas e bosques testando o coração dos homens, mostrando sua forma verdadeira (pele azul, cabelos branco-esverdeados, um olho sobre a testa, dentes de lobo e garras de urso) oferecendo a cada um deles um abraço e abrigo para o frio, àqueles que fogem são por ela devorados, àqueles que enfrentam seu medo e vêem a dama por trás das aparências são acolhidos e abençoados, alguns chegando ao coito com a Deusa, mas nesse momento ela se transforma na mais bela das fadas revelando sua beleza interior. É também o momento que Cailleach, segundo as mais antigas mitologias, prova da primeira maçã nascida em Avalon (Ilha das Maçãs) fruto que dá a ela a imortalidade e a divindade mesmo muito antes do surgimento de Danann. Cailleach também é conhecida por testar o coração dos reis (líderes, nos dias de hoje) será responsabilidade de suas más administrações o não êxito das reservas e dos campos na superação do inverno (é culpa dos líderes as catástrofes pessoais e públicas que acontecem nesse momento), pois acredita-se que todo líder que não tenha bom coração ou boa regência desagrada a Deusa que o castiga através do povo, obrigando que ele se sacrifique para que seu sangue acalme a fúria da Deusa (hoje em dia, podemos colocar isso na imagem do líder que se retira). Essa Deusa é conhecida pela “bipolaridade”, trás vida e morte e é a grande regente de Samhain como soberana eterna sobre o mundo e sobre a vida e a morte. Nas lendas gardnerianas seria ela a própria personificação da Morte bem como a Senhora de seu mundo.

Temos, ainda nas mitologias celtas, a Deusa Morrigan, após a grande batalha e a morte de seu amado CuChulainn, em sua face tríplice como Morrigù (Morrigan, Macha e Badb), senhora dos caminhos, da morte, dos espíritos mortos, da passagem e grande governante e guardiã do Mundo dos Mortos ao lado de Gwyn Ap Nudd (Nuada, o mão de prata, filho de Belenus  (Belenos/Bel/Bilé) com Danann (Dana/Danu/Ana/Anann/Anu/Dôn) e Rei das Fadas). Dizem que é nesse tempo que Morrigan peregrina pelos cemitérios ensinando sobre a Morte e conduzindo os mortos para o Submundo. É costume ouvir relatos de pessoas a verem vestida de negro, branco ou vermelho escarlate perambulando pelos cemitérios, quase sempre com a imagem de uma bela e melancólica jovem de longos cabelos negros, pele branca como o luar e olhares profundos, às vezes, ladeada por enormes cães negros e corvos. Enquanto Morrigù leva os espíritos para o Submundo e abençoa os vivos com a Morte (através de seu beijo e sopro – a imagem da bênção da morte como sendo a verdadeira essência e sabedoria, a verdadeira paz e descanso prometidos, a mais bela das passagens prometidas ao homem), Gwyn Ap Nudd recebe os espíritos no Grande Saguão conduzindo-os pelos Reinos de Arawn, o grande Senhor do Submundo. É Nuada que revelará suas essências aos espíritos auxiliando-os a se desprenderem da forma física o mais rápido e fácil, e ajudando-os a redescobrirem suas verdades para que possam prosseguir, retornar ou lá descansar. Enquanto isso, Arawn conduz os espíritos revoltosos ao Pátio das Lamentações, onde eles poderão se lamentar e sofrer sem prejudicar ou assombrar os vivos. Desecrevem esse pátio como um local onde os espíritos se mutilam e deformam pela dor e saudade da terra, de onde, em geral, foram retirados de forma brusca e fora de seu tempo. Revoltosos pela própria morte e ameaçando fazer o caminho de volta são vigiados pelos grandes Sinistros (os cães negros) e por outros seres do Submundo com poderes e capacidade de ferirem a alma espiritual; e, segundo a lendas, seres em que Morrigan governa.

Paralelo, e ainda na lenda de Morrigan, dizem que ela também lava os corpos dos espíritos assaltados (mortos de forma brusca e violenta) para que eles sofram menos e para que se sintam acolhidos com o choro e lamento dessa Deusa. Afirmam também ser possível vê-la em riachos lavando corpos espectrais  daqueles que morrerão de forma violenta ou na batalha, já protegendo e anunciando a morte daquela pessoa. As lendas morganianas se assemelham muito às lendas lilithianas nas mitologias médio-orientais.

Existem várias outras divindades que intercalam esse Dia, coloquei aqui um pouco sobre algumas divindades dentro do panteão que eu sigo, divindades que cultuo nesse dia. Mas sinta-se livre!

Porque Celebrar a Roda do Ano pelo "Norte" mesmo morando no Sul?

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Essa é de fato uma polêmica constante dentro da bruxaria, e não pretendo por a ela um ponto final, apenas acrescentar argumentações que eu compartilho. Eu, quando comecei, comemorava a Roda do Ano adaptando-a entre os Hemisférios, de acordo com o anunciado na grande parte dos livros. Entretanto, um dia, um amigo meu, neto de uma bruxa fantástica, me enviou as argumentações que sua avó o enviara sobre o "porque se deve comemorar a Roda como no norte". Confesso que fiquei dias pensando sobre o assunto, depois pedi a amigos que analisassem e discutissem comigo esse fato e, juntos, todos concordamos que as argumentações enviadas pela bruxa Adelyde Wingates eram mais que coerentes e adotamos a comemoração da Roda do Ano como no Norte.

Após esse fato, não contente com argumentações de outros e já comemorando a Roda como no Norte, me coloquei a buscar outras evidências a esse respeito e, pouco a pouco encontrei várias, baseando-se, inclusive, nas mitologias. A esse exemplo eu digo, os Sabbats representam dias dedicados a determinados Deuses na cultura celta, alguns sendo como "aniversários" (em especial Imbolc - Brigit - e Lughnasadh - Lugh). E você não muda de data de aniversário só por ter mudado de Hemisfério. Paralelo, nem sempre o inverno indica morte. Em muitos lugares e, inclusive onde eu vivo, é no inverno que se pode ter melhor controle do plantio, pois não se tem nem o calor excessivo do verão, ou as chuvas extremas que permeiam outras partes do ano; desse modo, não seria meu inverno uma plenitude?

Minhas reflexões sobre isso são inúmeras e creio que, antes de expô-los a elas, eu devo apresentar primeiro o texto e argumentação mais bem embasado que já li a respeito dessa discussão toda. Não quero colocar nunca uma verdade sobre as outras, do mesmo modo que o texto deixa claro, não importa como você celebra e sim se sua celebração é de coração, pois se assim o for, ela será real. Mas afirmo, que não encontrei nada que desbanque a argumentação dessa bruxa incrível, para além disso, após ter começado a viver a Roda de acordo com seu giro no hemisfério norte, posso realmente senti-la fluindo muito forte, inclusive em mim, em minha vida pessoal.

Mas chega de falar, segue o texto referido, enviado de Adelyde Wingates para seu neto e a mim por seu neto, Moon Caos Wingates, e, se desejarem, fica aberto a discussões!

(Considerações: Mavesper é wiccana, por isso citará "Deusa e Deus", enquanto eu como reconstrucionista usarei sempre no plural. Apesar dessas divergência dogmáticas, vale a pena ler e buscar entender o texto.)


PORQUE COMEMORAR A RODA DO ANO SEM A TRANSLITERAÇÃO DE DATAS PARA O HEMISFÉRIO SUL?
Texto de Mavesper Cy Ceridwen.
Enviado a mim pelo neto de Adelyde Wingates, por e-mail, em 2009.


Há muitos anos comemoro os Sabbats pelas datas do Hemisfério Norte. E é muito comum ouvir todo tipo de críticas a essa decisão, algumas até impregnadas de surpresa (“Ora, que absurdo! Verão é verão e inverno é inverno!”), revolta (“Que coisa ridícula! Aqui é Hemisfério Sul!”) o até de certo ar de superioridade (“Quem é ligado realmente à Terra celebra os ciclos pelo Sul”).

Não obstante a maioria das pessoas com o tempo aceite que cada um celebra de acordo com o que sente e acredita, e sempre a celebração funciona – seja a Roda Norte, a Sul ou a Mista – é preciso que deixe de haver tanto preconceito. Muitas pessoas acham que celebrar pelo Norte é algum tipo de ignorância ou loucura, em que os “pseudo bruxos” expressam o quanto ignoram a natureza. Porém, muito longe desse preconceito, há muitos fundamentos para celebrar pelo Norte, e os exporei a seguir.
Para que as pessoas saiam da superficialidade dessa discussão, como se a coisa se reduzisse a um simples critério geográfico, ou um inverter de datas, é preciso que paremos para pensar se sabemos mesmo o que estamos comemorando na Roda do Ano.
A Roda do Ano como é celebrada na Wicca ou mesmo pela Antiga Arte representa festivais sazonais de plantio e colheita. Sua origem está nos primórdios dos tempos, no período Neolítico, há mais de 10 mil anos, quando surgiram a agricultura e o pastoreio.

E mesmo eu os utilizando engana-se redondamente quem acha que estamos celebrando festividades celtas (os povos celtas viveram na Europa entre 2000 AEC – Antes da era Comum- e 400 DEC – Depois da Era Comum). Praticamente todas as culturas pagãs do mundo celebraram os festivais da colheita.
Considerando que os celtas existiram na Europa há cerca de 2 mil anos, só por esse dado se percebe que estamos celebrando muito mais que festivais de um povo ou etnia


Estamos celebrando a dança da natureza, tal como ela se apresentou a nossos ancestrais desde o tempo em que a agricultura e os ciclos dos vegetais plantados, e a criação de animais em cativeiro, mostraram à espécie humana que existiam ciclos solares, que antes passavam desapercebidos porque são de grande duração e difícil observação se não acompanhados pragmaticamente, no dia a dia. 

Considerando, pois, que a Roda surge em função das atividades humanas relacionadas a plantio e colheitas, temos que lembrar que ela tem diversas dimensões e funções sociais: ela é notoriamente impregnada de intenção mágica, porque essas celebrações visavam garantir que as colheitas fossem fartas e as pessoas sobrevivessem aos rigores do inverno.
Por outro lado, elas faziam com que a sociedade humana marcasse seus eventos – namoros, casamentos, festas de maioridade, celebração dos mortos – em função dos ciclos dessas colheitas.
Pensando assim, temos que perceber que a Roda do Ano tem diversas dimensões:

  1. a sequência dos ciclos solares em si, e das mudanças de temperatura e duração de luz solar a cada dia;
  2. as atividades agrícolas;
  3. as atividades de pastoreio (se era tempo de engorda, reprodução, aleitamento do gado ou se era tempo de corte);
  4. a alternância de disponibilidade da comida ( se era tempo de fartura de grãos ou de economizar, se era tempo de colher vegetais e frutas perecíveis ou tempo de alimentar-se de sementes nutritivas, por exemplo);
  5. as atividades humanas que correspondiam a esses ciclos – se era tempo de grandes festas coletivas com comida farta ou se era tempo de se recolher dentro de casa só com a família e economizar comida para sobreviver ao inverno.

Considerando-se tudo isso, é muito importante que acordemos para o seguinte: muita gente fala da Roda do Ano como se ela fosse uma lei que a Deusa escreveu para os celtas ou para Gardner e ele desceu do Monte Tor com chifres de luz e deu ao povo pagão... Ridículo! A Roda do Ano não é como os dez mandamentos cristãos, não foi “legada” pela Deusa, nem é “indiscutível”.
Quem, afinal, determinou que a Roda do Ano funcionaria com datas invertidas no Hemisfério Sul, simplesmente? Certamente isso surgiu quando a Wicca começou a ser praticada na Austrália, de acordo com critérios advindos de grupos que seguiam a Wicca Gardneriana ou Alexandrina. Não é absurdo crer que ninguém realmente pensou na Roda e como ela funcionaria, que podia haver muitas diferenças. Simplesmente alguém que morava no Hemisfério Norte e nada sabia da natureza do Hemisfério Sul, quando foi orientar os novos praticantes do Sul, agiu racionalmente e simplesmente trocou as datas de acordo com a estação do ano. Mas será que isso é válido mágica e energeticamente ou é uma simples operação mental sem grande fundamento?

Para responder isso, temos que continuar pensando nas origens da Roda e no que ela realmente significa. 
Tudo o que significa a Roda do Ano é construção cultural humana sobre eventos naturais. Ritos de celebração, ritos propiciatórios (para obter melhores colheitas), rituais de magia simpática para que a fartura voltasse depois do inverno. Quem se apega muito à questão Hemisfério Sul/ Norte, se atém ao fato de que “Ué, aqui é primavera e não outono”... mas esquece que os próprios conceitos do que é primavera e do que é outono são CONSTRUÇÕES CULTURAIS HUMANAS.

Somos tão condicionados a aceitar primavera/verão/outono/inverno como coisas “naturais” que nem paramos para pensar que até mesmo isso, essa divisão, tem um conteúdo definido culturalmente. Nem toda natureza do planeta apresenta ciclos quaternários bem definidos. Em muitos ecossistemas o sistema binário é muito mais óbvio (chuva e seca, por exemplo), e acabam se aplicando os termos primavera/verão/outono/inverno muito mais por inércia cultural do que porque são a descrição da realidade da natureza. 
Por todos os ângulos que se estude quer a Roda do Ano, quer o próprio conceito cultural que definiu como são as 4 estações, sempre se chegará a uma só conclusão: TUDO ISSO FOI DEFINIDO EXCLUSIVAMENTE EM FUNÇÃO DE COMO A NATUREZA SE COMPORTA NO HEMISFÉRIO NORTE.
A Roda do Ano celebrada na Wicca (na maior parte das tradições, porque existem tradições que celebram outras sazonalidades, como a egípcia ou a grega, por exemplo) que trata de uma mitologia em que a Deusa engravida do Deus, o mata na colheita e depois o faz renascer em seu ventre para recomeçar o ciclo, é a mitologia nascida da interpretação dos povos antigos para o fato de que no Hemisfério Norte, especialmente na Europa, em certa época do ano tudo morria sob a neve.
Nos solstícios chega a haver 6 a 8  horas de diferença entre o tempo de luz solar, ou seja, na Inglaterra, no solstício de verão, o Sol nasce as 6 horas da manhã e só se põe perto da meia noite, enquanto no inverno nasce as 6 horas para se por perto das 3 ou 4 horas da tarde. Notem que essa foi a natureza que inspirou os mitos da Roda, em que o Deus morre e renasce, porque o regime de iluminação solar é muito diferenciado.
No Hemisfério Sul essa enorme diferença, mesmo nos locais mais próximos do pólo, jamais é tão marcada. Nem no Brasil, nem na Austrália, por exemplo, há tanta diferença entre a iluminação no verão e no inverno. Nossa vegetação JAMAIS morre toda ao mesmo tempo e há colheitas e plantio o ano todo... logo, é mais que óbvio que como os ciclos se expressam aqui JAMAIS terá correspondência com o que ocorre na Europa.
Então, essa foi a primeira grande conclusão que cheguei quando pensei a Roda: TENTAR FAZER COM QUE OS 8 SABBATS EXPRESSEM A REALIDADE DA NATUREZA DO HEMISFERIO SUL É COMPLETAMENTE IMPOSSÍVEL.
Nosso Sol, mesmo no inverno, jamais morre de vez, nem há longos períodos de escuridão. A diferença entre as horas de iluminação de inverno e verão não chega a 2 horas... então, o que muda aqui?
Certamente, se fossemos construir uma mitologia que expressasse os ciclos da natureza do Brasil ou do Hemisfério Sul, teríamos uma mitologia centrada não no desaparecimento do Sol, mas sim no da água. Muito mais que a diferença de iluminação, no Hemisfério Sul, os ciclos da água é que denotam mais a sazonalidade. No verão chove muito mais, no inverno há seca.
TENTAR ADAPTAR A RODA DO ANO À NATUREZA DO HEMISFERIO SUL EQUIVALE A TENTAR ENCAIXAR UM PINO REDONDO EM UM BURACO QUADRADO – NÃO FUNCIONA.
A Roda Norte, que é a roda de 8 sabbats, com um ciclo de plantio e 3 colheitas seguidas, jamais poderá servir para descrever a natureza brasileira, por exemplo, em que há 3 ciclos diferentes de plantio de grãos – há, por exemplo, 3 colheitas de milho no ano, a maior delas em pleno inverno!
As pessoas que simplesmente invertem as datas acabam celebrando falsamente os ciclos agrários, porque jamais conseguirão com uma Roda de apenas 8 festivais computar todos os tempos de nossos plantios e colheitas.
É forçoso, pois, concluir que quem celebra pelas datas do norte celebra “ ao contrário” das estações, mas quem celebra pelas datas do sul TAMBÉM NÃO CELEBRA A REALIDADE DA NATUREZA. E ai, o que isso significa?
Durante algum tempo até pensei, com outros pagãos brasileiros, se não seria de se construir uma mitologia diferente. Logo abandonamos essa idéia. Mitologias não são inventadas, não são fruto de um grupo de pessoas, nem apenas de atos racionais. São fruto da alma de povos, precisam surgir espontaneamente, e ser transmitidas pelas gerações, senão não tem força e não expressam verdades que vão muito além da simples descrição de fenômenos climáticos.
E aí, ao pensar nisso, é que começamos a perceber o que realmente é a Roda do Ano, tal como nos foi legada por nossos ancestrais europeus. Ela não fala de temperaturas, nem de tempos de sol ou folhas secas ou brotos verdes... Essas coisas apenas serviram como marcadores do que é realmente a Roda. Ela fala de realidades além do humano, além das colheitas, além das formas que as expressam. Ela fala de coisas que são mistérios, muito mais profundos do que a temperatura ou os critérios geográficos.
Se a Deusa em que acreditamos é o Todo e seu corpo é o próprio Universo, então, temos que admitir que a Roda do Ano descreve o respirar da Deusa, como Ela se comporta e como muda na dança do ano. Vejam bem: como a Deusa muda, e como as energias fluem por seu Corpo INTEIRO, TODO.
A Roda do Ano fala, realmente, daquela que é muitas vezes chamada em textos inspirados como “ A única lição da Deusa”, que é a Lição dos Ciclos. A Roda do Ano diz que há um tempo de despertar e crescer, um tempo de amadurecer, um tempo de colher, um tempo de morrer, um tempo de esperar e depois outro tempo de renascer. E isso não ocorre só em um pedaço (sul ou norte) do Corpo da Deusa.
Isso ocorre, obviamente, em TODO O CORPO DA DEUSA AO MESMO TEMPO.
Creio firmemente que a Roda do Ano não possa e nem deva ser reduzida a critérios geográficos. Ela precisa ser entendida como a descrição do fluir da energia e suas variações no Todo, que é o Corpo dEla.
Por essa visão, então, deixa de ter importância em que hemisfério moramos ou que temperatura faz em cada sabbath e acabamos vendo os sabbats em sua essência e compreendendo as mudanças climáticas de onde estamos apenas como referencias ao ciclos. Porque se o corpo dela é o universo, então é Imbolc em toda a Terra, e em Alpha Centauri, Plutão ou no Cometa Halley, por exemplo...
Explicando: eu não celebro Ostara como apenas o início da primavera. Ostara é a entrada do Sol no signo de Áries, ou seja, um tempo de impulsos, nova vida, iniciativas, explosões e jorros de vida e energia.
Março é, pois Ostara, seja no norte, onde corresponde à primavera , ou seja no Sul, onde corresponde ao outono, mas o outono traz esse jorro de inícios, porque o ano civil começa de verdade. Ou você não sente um tempo de inícios em sua vida após o Carnaval?
Hoje eu celebro Ostara em março e celebro o plantio na minha vida, embora seja o tempo em que começarão os 6 meses de seca do cerrado, em que moro.
No nosso Ostara sempre há a celebração tradicional e depois a saudação e boas vindas às forças da seca, que matarão o cerrado, mas o farão renascer depois. Celebramos também o plantio em nossas vidas. E realmente o ano mal começou e é tempo de planejar e querer mais.
Como se vê, quem celebra pelo norte não ignora o clima e a natureza que o cerca, somente interpreta esse ciclo como parte de um ciclo universal dos Sabbats.
Do mesmo modo uma pessoa que nasce em março no Hemisfério Sul não se torna, pelo critério geográfico, do signo de Libra, mas continua sendo do signo de Áries. Isso ocorre porque o Zodíaco, como a Roda do Ano tem uma aplicação universal: é uma linguagem que descreve a predominância de energias no Corpo da Deusa, esteja você onde estiver.

Assim é que podemos ver a correspondência exata dos signos com os Sabbats: 


  • Imbolc – Aquário – renovação 

  • Ostara – Áries – Impulsos 

  • Beltane – Touro – Sensualidade 

  • Litha – Câncer – Família 

  • Lammas – Leão- Sacrifício do Sol 

  • Mabon – Virgem – Colheitas e agradecimento 

  • Samhain – Escorpião – Morte e mistérios 
  • Yule – Capricórnio – Esperanças

Note, porém que SÓ HAVERÁ CORRESPODÊNCIA EXATA DOS SIGNOS COM OS SABBATS SE MANTIVERMOS AS DATAS ORIGINÁRIAS DO HEMISFÉRIO NORTE. Se invertermos as datas, essa correspondência se perde, e pior, creio que se perde também a noção de que ao celebrar a Roda estamos celebrando algo universal e não apenas local.

Celebrar pelo Hemisfério Norte tem ainda duas enormes vantagens: 
  1.  Celebra-se de acordo com a EGRÉGORA ANCESTRAL e não contra ela. Ou seja, celebramos seguindo o mesmo fluxo energético que dura mais de dez mil anos. Essa força não é nada desprezível e todos os que celebram pelo Sul sabem que ela muitas vezes os impulsiona a celebrar, por exemplo, Samhain em 31 de outubro.
  2. Celebra-se o que a sociedade brasileira está vivendo, ou seja, celebram-se os fluxos de energia criados pelas crenças e pela atividade de 200 milhões de pessoas vivas aqui e agora, para quem Yule ( ou Natal) é em dezembro, Ostara ( ou Páscoa) é em março, Dia dos Mortos é perto de Samhain , na transição outubro/novembro e por ai vai...

Lembrem-se que esta força não é de ser ignorada, porque se originariamente a Roda expressa o que a sociedade humana estava celebrando de acordo com a época do ano, não podemos dizer que o que os brasileiros estão celebrando não afete nossa roda pessoal. Nem se diga que as pessoas seguem festivais cristãos, porque isso não é verdade. As pessoas celebram o que nossos ancestrais pagãos celebravam, SEGUNDO O HEMISFERIO NORTE. Logo, celebrar pelo Norte nos mantém ligados ao que nos rodeia, nossa realidade social.
Olhando ainda o que ocorre na natureza do Brasil, vemos que muitas vezes a Roda Norte acaba expressando alguns momentos de nossa realidade. Por exemplo, na época das festas juninas celebramos Litha/ Lammas. Ora, esses são festivais de fartura.
E o milho é muito farto. Quem inverte e celebra pelo Sul, está em Yule, que deveria ser um tempo de escassez. Ora, mas eles alegam que seguem a realidade da natureza e estão ignorando solenemente essa fartura e celebrando a escassez! Tudo isso só vem demonstrar cabalmente que tanto se ignoram aspectos da natureza do Hemisfério Sul celebrando pela Roda Norte quanto celebrando pela Roda Sul.
A observação de algumas Rodas agrícolas de festivais das nações indígenas brasileiras revelam coincidências notáveis com a Roda Norte. Por exemplo, a Povo Araweté tem o costume de colher somente até o final de outubro, deixando apodrecer na roça o que não foi colhido até então. Esse é um costume típico de Samhain, e foi celebrado por um povo pagão genuinamente brasileiro em outubro...



A Roda do Ano

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A Roda do Ano é o Grande Calendário Celta, hoje também Pagão em geral. Geralmente é apontada apenas contendo os Sabbats, mas, mesmo ocultos, dela também participam os Esbbats, seja de forma indireta na comemoração dos Sabbats ou de forma direta ao se eleger, solitariamente ou em grupo, a quais comemorar.

É difícil definir em poucas palavras todo esse calendário. Na verdade, só mesmo com a sua prática é possível compreender sua totalidade e entender que ele vai muito além das colheitas e plantio e mais além ainda do que a regência das estações do ano... O que pretendo nessa primeira postagem é estabelecer um resumo simples para uma primeira compreensão e, pouco a pouco, em postagens futuras, vamos discutindo mais e melhor cada ponto desse fabuloso calendário e jeito de encarar a vida. Afinal, é esse o grande fio central que une todas as tradições pagãs como irmãs; pode-se nomear de forma diferentes os festivais, dedicá-los a Deuses com outros nomes e até comemorá-los em datas mais ou menos diferentes, mas todos eles existem, independente de tudo isso com o mesmo propósito central; se tornando então, a verdadeira linha de fé e vivência da fé do paganismo, todo o resto, pode-se dizer, derivaria dessa "linha central".

Atualmente, a Wicca adaptou a antiga Roda ou Espiral do Ano Celta como sendo seu calendário ritual principal. Mas no Reconstrucionismo, a Roda vai sofrer muitas mudanças de acordo com cada povo, cada divindade e cada regência. Isso é normal, não se assuste. O que vou apresentar aqui no blog é o modelo que eu sigo e que muito se aproxima do modelo wiccano, contendo 8 grandes festivais anuais (sabbats), mas alguns grupos druídicos, por exemplo, só comemorarão 4 sabbats. Não se acanhe em pesquisar mais e chegar a sua Roda perfeita.

  • Os Esbbats: 

   Os Esbbats são as comemorações e festejos dedicado à magia, aos aspectos dos Deuses e, sobretudo, aos dias e festas sagrados (dia de cada divindade, por exemplo). Dessa forma existem milhares de Esbbats diferentes, cada um com uma finalidade e festejo bem peculiar. Mas em tradição, principalmente da Wicca, comemora-se, no geral, apenas os Esbbats lunares, desses apenas os da Lua Plena e da Lua Negra se mostram realmente importantes; talvez pelo exato fato da Lua Plena representar a plenitude e a Lua Negra representar o oculto, o Outro Mundo, enquanto a Minguante representa o necessário, a transição , o término ou declínio de algo, já a Crescente é a renovação e o amadurecimento. Desse modo, as duas primeiras luas são os pólos, enquanto as demais são as transições: do oculto a revelação.            Contudo, há algumas luas em que muitos bruxos gostam de festejar. Há discordâncias quanto aos nomes adotados por cada bruxo para designá-las, mas não há discordância quanto as suas funções, poderes e épocas. 


















  • Os Sabbats:



            Os Sabbats[1] são os festejos pelas passagens da vida de uma forma geral. Desse modo, os Sabbats são, de forma mais objetiva que os Esbbats, a comemoração do Ciclo da Vida como um todo e, talvez por isso, eles sejam mais comemorados. Só existem oito Sabbats (podendo esse número oscilar para menos em algumas tradições), desses, quatro são principais e quatro são secundários. Os principais indicam as fases em si, ou os grandes eventos do Ciclo: nascer-crescer-morrer-renascer; já os quatro secundários seriam as transições, complicações e/ou preparações para essas fases. Contudo, apenas dois de fato polarizam as comemorações, assim como as luas, indicando o período “plenitude” e o período “morte”.



[1] É da palavra “Sabbath” que vem o “Sábado”, significando exatamente dia de festa, júbilo.

sábado, 8 de outubro de 2011

A Bruxa


(Trecho retirado do livro que estou escrevendo... A.A.)

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      Talvez seja essa a personagem infantil mais internacional de todas. Em todo lugar há menção de uma personagem com poderes mágicos, que viva na floresta, que lide com ervas e que saiba das coisas. Em algumas ela é feia e má, em outras é feia e boa, ou bela e má ou ainda bela e boa. Mas da onde vem a bruxa? Quem ela é? O que ela faz? A quem ela serve? De onde vêm seus poderes?
          Essas perguntas talvez já tenham recorrido em muitas pessoas, afinal o mito, a lenda, o personagem existe, mas ninguém sabe explicar de onde ele veio. Para isso, é preciso desmistificar as coisas e achar as passagens culturais em cada um dos personagens. Vamos então ao que concerne a cultura ocidental:
            A palavra portuguesa “bruxa” assim como a palavra espanhola “bruja” derivam da mesma origem etimológica: a palavra gaulesa de gênero neutro “brixton” que significa luz, brilho, sabedoria, encanto; portanto o brixton seria aquele que erradia luz, sabedoria e domina as artes mágicas, daí o “saber encantar”. Já a palavra francesa “sorcière” vem do latim “sorceres” que significa aquele que profere, que professa. A palavra inglesa “wicth” vem do irlandês antigo “wicca”(masculino) e “wicce” feminino com o mesmo significado de brixton.
            Mas se a palavra vem ou significa algo tão bom, de onde surgiu a bruxa má? E quem é essa bruxa a que as palavras se referem? Quando ela existiu?
            No tempo antigo, muito antes da Igreja Católica existir, a bruxa não era boa nem má, ela era o equilíbrio, mas o que ela fazia podia ser tido por bom e mal. Na verdade, no mundo antigo bondade e maldade existiam juntas, ao mesmo tempo, nas mesmas pessoas; como todo humano de fato é, são as ações e, mesmo assim de forma relativa, que são passíveis de julgamento moral. Essa mesma bruxa, geralmente vivia em vilarejos, em casas simples e perto da floresta, geralmente eram letradas ou conheciam muito bem as lendas de cor, sabiam sobre o céu e a terra; e contava o tempo, sabendo a época da chuva, da seca, do calor, do frio. As bruxas sabiam remédios de cura, de encantos e magias para várias utilidades. Eram os grandes bruxos e bruxas que se tornavam conselheiros de vários reis e centrais na vida de um povoado. Eles conheciam a natureza, e sabiam as mais avançadas técnicas de arado, colheita, e tudo mais. Os bruxos do passado eram grandes cientistas, mas viviam em dois mundos; eram eles os condutores entre o mundano e o mágico/espiritual.
            Geralmente por serem ligadas a magia e ao sobrenatural os bruxos e bruxas do passado eram seres noturnos, pois a magia sempre foi relacionada aos mistérios femininos, à noite, à lua e ao fogo. A magia é um mistério e por isso seu lar é o que existe de mais misterioso no mundo, o escuro – que no passado jamais foi considerado o mal, na verdade o escuro é um lugar onde sua visão tem nenhum ou pouco poder, portanto, você precisará sentir, o que se relaciona totalmente com a magia, já que ela (apesar de poder ser vista pelo nosso subconsciente) é invisível, mas totalmente sensível; por isso, a magia seria o mais alto escuro, aquele que abriga dentro de nós mesmos e que se reflete principalmente na Noite sem Lua, daí o fato das bruxas serem noturnas, misteriosas e chamadas de negro e o que também explica a dualidade presente nas divindades da Lua Negra[1], assim como seus dotes e regências sobre a magia.
            Ora, sabendo disso temos a bruxa montada: gosta de preto, noturna, conhece a natureza, é cercada de animais, cultua a Lua e usa o fogo com instrumento. Espera aí, mas essa não é a bruxa medieval, a malvada? Sim, é exatamente a mesma. A diferença é que na Idade Média, a Igreja Católica imperava sobre a Europa e proibia o culto a magia e as antigas tradições; com isso, pouco a pouco, transformou a bruxa em um estereótipo do mal, da maldade e seus símbolos em demoníacos: a floresta, a noite, o fogo, o preto. E aí surgiu a bruxa como nos chegou hoje, aquela que faz maldades, mantém pactos com o diabo, se reúne na floresta para grandes convenções ao redor do fogo onde convidam o próprio diabo para festejar.
            Mas e a bruxa de hoje, como é? A bruxa sempre foi a mesma bruxa, por mais que a Igreja tenha criado uma nova, ela ainda continua a mesma. De fato a Igreja criou uma nova bruxa. A partir das sugestões da Igreja e da usurpação da fé cristã se criou a fé satânica que cultua o anti-cristo. Mas essa não é a bruxaria tradicional e essa não é a bruxa a que descrevo hoje.
            A bruxa de hoje, seja ela homem ou mulher[2], não necessariamente traja preto, não necessariamente é velha e, não é nem má nem boa, ela é o equilíbrio. A bruxa de hoje reconstrói em nossa nova cultura a mesma bruxa de antes, adaptando a magia ao mundano e o mundano a magia. Hoje as bruxas usam jeans, camisetas, saias, sapatos, maquiagens. Estudam em escolas mundanas, se graduam, trabalham, pagam impostos, têm relacionamentos, família, amigos; às vezes moram em casas com jardins, outras perto da floresta e outras ainda em altos apartamentos comprando os materiais de que precisam, outras fabricando elas mesmas. Mas todas são igualmente bruxas!
            Mesmo vivendo nessa nova cultura de modo tão moderno e antigo ao mesmo tempo, a bruxa de hoje continua cultuando a floresta, as Divindades, os Elementos, a Natureza, o Fogo, a Lua. A fé na magia que faz a bruxa permaneceu intacta mesmo depois de todos esses séculos. Hoje, talvez, possamos dizer que novas tradições de magia de criaram e que a fé única se ramificou em práticas mais do que já era ramificada antes. Novas tradições foram criadas sem desacreditar a magia, pois essas novidades em suas práticas mantêm viva a fé raiz, adaptando-a ao mundo atual. Mas há ainda as bruxas que tentam recriar e viver da melhor maneira possível a bruxaria tradicional, escolhendo uma das antigas culturas que a viviam (celtas, nórdicos, gregos, romanos, egípcios, babilônicos, sumérios, acadianos, entre outros); assim como há os privilegiados que nascerem em berços pagãos e seguem as tradições familiares passado de geração por geração.
            A bruxa de ontem predizia tempos, ajudavam heróis, decidiam batalhas e prestavam serviços à comunidade. As bruxas de hoje talvez não possam fazer tudo isso como antes, pois hoje temos dívidas com o Estado e uma tendência a um mundo público cada vez mais laico. Mas as bruxas continuam a definir jornadas e atuar as coisas a seu modo. De forma indireta elas lançam seus poderes na sociedade tentando conduzi-la ao melhor fim possível, corrigir problemas; ainda prestam serviços à comunidade, seguindo as regras morais que elas adotam consigo mesmo e geralmente através da Troca da Prata[3]. A bruxa continua comemorando seus Sabbats e Esbbats[4], se reunindo em grupos e reunindo grandes pessoas para realizar grandes feitos. Ou seja, a bruxa de hoje continua sendo tão bruxa quanto no passado, apesar de hoje não ser tão reconhecida como tal. Porém, tudo isso exige da bruxa uma tremenda responsabilidade. Ter em suas mãos o poder de moldar destinos, transformar realidades não é mera brincadeira e nem age por pura intenção. A magia tem suas regras, muitas vezes chamada de Ciência Oculta, se porta exatamente dessa maneira. Há que se estudar muito a magia e ter total fé e ciência de seus atos para realizá-la da melhor maneira possível.
            Sabemos que a palavra “bruxa” não é a única a definir praticantes da Ciência Oculta, temos ainda o feiticeiro, o mago, o druida, o vizir, o mágico, o sacerdote, o vidente, dentre outros. Mas há alguma diferença entre eles? Bem, sim. Na verdade a diferença poder ser mais cultural do que específica; ou seja, a diferença que aponto aqui não é uma concepção universal, podendo ser uma pessoa mais de um título.
            O bruxo se torna aquele que lida com a natureza, que segue uma fé clara, definida com entidades, cultos e afins. Os bruxos não têm líderes, nem hierarquia. Na verdade podemos dizer que entre os bruxos impera-se uma anarquia bem sucedida podada pela intuição e pela fé. Mas essa anarquia sempre foi positiva e nunca trouxe problemas ou desordem entre um grupo de bruxos, pois se impera o respeito e a igualdade.
            o feiticeiro, é aquele que lida predominantemente com a magia do fato, do destino. A magia falada, objetiva, menos cultual, mais solitária. Um feiticeiro não precisa, necessariamente ter uma fé definida, pois o feiticeiro pertence ao Cosmos, pertence a tudo. Por serem mais solitários é comum que não hajam muitos grupos de feiticeiros que se reúnam comumente, por isso, fica difícil dizer sobre hierarquia nesses grupos. Acredito que haja uma completa independência nesse caso.
            O mago se caracteriza pela versão mais oriental da magia. O conhecedor de rituais de alta magia, de chaves e selos e que controle seus poderes através dos rituais e de extensos treinamentos e reclusão. O mago é o mais próximo e o mais distante de sua fé ao mesmo tempo, pois ele pertence a fé sem ser subordinado a ela. Geralmente, os magos se portam por níveis, tanto de poder quanto hierárquicos.
            O druida é o mais alto sacerdote da fé celta, ele é um porta-voz dos Deuses, médico, filósofo, juiz, xamã e líder religioso. Portanto, ele é o condutor da magia e da fé celta, um interlocutor entre a natureza,os espíritos, os Deuses e os homens. Apesar de não haver hierarquia determinada entre os druidas, além da visão da matriarca, eles tem um título destinado aos maiores druidas, aos porta-vozes entre o outro mundo e esse; que são chamados de Merlin (masculino) ou Morgan (feminino). Outras duas categorias principais da religiosidade celta são os Bardos (escribas, legistas, músicos, contadores de história e poetas) e os Ovates, ou Vates (xamãs e videntes celtas).
            Vizir é o título dado ao feiticeiro imperial, o feiticeiro particular do rei. O primeiro vizir de que se tem notícia é Imoteph.
            O vidente é considerado aquele que é capaz de prever o futuro. Existem muitos dons psíquicos, esse é apenas um dos.
            O sacerdote, por definição, é aquele que guarda e conduz uma determinada fé. Hoje em dia, um bruxo pode ser sacerdote e bruxo ao mesmo tempo. Um sacerdote da magia tem que conhecer e conduzir tanto as forças na natureza como conhecer e entender a fé e as vontades espirituais e divinas.
            O mágico, bem essa categoria é mais universal, se chama, geralmente, de mágico ao famoso mágico de espetáculo, o ilusionista que cria truques para se divertir a família.
            As categorias são importantes na magia, mas mais importante ainda é você se sentir bem e se enquadrar na magia. Por mais que as categorias sejam fixas, você pode misturá-las e mesmo transitar entre elas. O mais importante é você ser quem acredita ser e conseguir o título que, em seu íntimo, você sinta ser seu. Mas lembre-se dedicação é fundamental.
            Quanto ao chamado Diabo, não se preocupe. Na verdadeira bruxaria ele pode até existir, mas não entra. A bruxa cultua Deuses antigos alguns semelhantes a imagem medieval e moderna do diabo (talvez a inspiração para ela): Pã, Green Man, Cernunnos; Deuses esses que, em geral, representam todas as criaturas vivas, a selva e as coisas silvestres, a liberdade e o fulgor da vida. Esses Deuses geralmente tem uma forma híbrida, ele é coberto ou feito de folhagens, geralmente tem as pernas e patas de um bode, e na cabeça chifres de cervo ou de bode. É dessa imagem que ansce o Diabo medieval, já que as escrituras cristãs apontam Heliel Ben-Sahar[5] (o Anjo Caído, cujo nome significa “estrela da manhã”) como o mais belo dos anjos e não como uma figura tão feita da natureza mundana.
            A partir disso, podemos concluir que o Diabo e demônios não existiam na bruxaria/paganismo ele foi trazido a ela pela Igreja. E depois que as forças demoníacas passaram a também agir na Europa, as bruxas passaram a estudar demonologia e, algumas, angiologia; não para usar dessas forças, mas para aprender sobre elas, sabendo, portanto, combatê-las.


[1] A lua nova é chamada no geral pelas bruxas de Lua Negra. E eis algumas divindades da Lua Negra: Hécate, Morrigù, Morrigan, Badh, Macha, Lilith, Lilá.
[2] Chamo aqui no feminino para primeiro polarizar o fato da magia ser dedicada e considerada feminina, apesar de abrigar ambos os sexos, e para contrariar a regra portuguesa “machista” de polarizar os sexos no masculino, polarizando assim os sexos no feminino; mas ao falar bruxas abrigo bruxos e bruxas.
[3] A Troca da Prata é um ato comum entre os bruxos desde o renascimento, quando os bruxos passaram a trocar serviços por dinheiro. Para alguns, mesmo na Arte, isso é abominável, mas se tornou uma regra social na magia, cumprida por alguns rejeitada por outros. Apesar de geralmente cobrar apenas os materiais, eu reconheço que nos dias de hoje o dinheiro é essencial para a sobrevivência, já que temos que, no mínimo pagar impostos.
[4] Sabbats e Esbbats são festivais do calendário anual pagão, dos quais falarei posteriormente.
[5] O Anjo Caído, conhecido por Lúcifer, segundo a Angiologia tem o nome de Heliel Ben-Sahar, cujo significado é Estrela da Manhã. Lúcifer, em latim Lucifero significa Portador da Luz (Luci/fero – lux = luz / fero = portador), que também era o título dado pelos romanos pagãos ao Deus do Sol, Apollo.