quarta-feira, 24 de junho de 2015

As Fadas (os "Sidhe")

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(dica: assista o filme "As Crônicas de Spiderwick")

As fadas são seres intrigantes que aparecem de forma repaginada várias vezes em várias mitologias. Eu particularmente adotarei as fadas como sinônimo do termo grego “Elemental”, seres (e não espíritos) mágicos ligados a natureza e que muitas vezes vivem no Outro Mundo ou em trânsito constante a esses mundos.
            
Ao contrário do que os contos recentes descrevem, as fadas não são apenas seres alados, pequenos que cuidam da natureza. De acordo com a origem do termo, em inglês, Faery People, “O Povo das Fadas” ou o “Povo do Faery”. Essa categoria é uma categoria generalizadora que engloba uma porção de seres catalogados, e outros ainda não catalogados, que costumamos chamar de “seres mágicos”. Assim, as fadas são todos os seres mágicos que vivem em diálogo com nosso mundo: silfos (os alados), gnomos, duendes, dragões, salamandras, e uma porção de outros catalogados e muitos que ainda não foram catalogados por nós.
            
O “Faery” pode se referir ao “País das Fadas”, uma terra pertencente a nossa realidade, mas separada de nossa esfera por um véu mágico que separam os mundos. Também é conhecida pelos celtas como Tír na nÓg. Esse outro mundo é tangente ao nosso, o que significa que vivemos em realidades sincrônicas, o que acontece em um abala o que acontece no outro e é assim que as fadas tem o poder de moldar nosso mundo. Contudo a passagem de um para o outro nunca foi descrita como simples ou fácil, mas um fato a ser dito é que as fadas as dominam.
            
Apesar dos contos modernos, as fadas não são – e nem devem ser vistas dessa forma – seres mágicos puramente bons, dóceis e fofinhos. Pelo contrário. As mitologias mais antigas nos contam que são um povo bem arredio, tímido e muitas vezes perversos quando se sentem perturbados, ou envergonhados. Contudo, é possível fazer amizades e trabalhar em conjunto com as fadas quando as entendemos bem.
            
Assim como nós, as fadas têm seu lado obscuro. Esse lado está vinculado em primeiro às lendas que contam que as fadas, quando envergonhadas ou ofendidas, atacam com maldições e as vezes até letalmente aquele a quem elas consideram seus agressores, seja tirando suas posses, sua visão, causando loucuras ou mesmo levando a morte. As vezes punindo diretamente, outras através de intermediários. Outro fator que comprova esse lado obscuro é o senso de humor sombrio ou negro das fadas, que muitas vezes se divertem com o mal feito ou com as vergonhas humanas, por isso elas são associadas às travessuras da noite de Halloween. A esse humor travesso e punitivo, também se associa a chamada “possessão de fada” que se remete a influência direta, possessiva de uma fada sobre alguma pessoa, fazendo-a realizar grandes feitos e prodígios, ou fazerem coisas humilhantes ou mesmo enlouquecendo-a. No primeiro caso, é costume que a pessoa não se recorde de absolutamente nada do ocorrido após o término da possessão. Outro fator que contribui é a presença de várias lendas que descrevem as fadas raptando seres humanos, em sua maioria bebês e crianças para o seu mundo – não com o intuito de fazer mal a criança, mas de criá-las. Essas lendas encontram subsistência na hipótese de que as fadas não poderiam amamentar seus próprios filhos e, por isso, pegariam filhos humanos para criá-los, muitas vezes deixando seus filhos para que os humanos o criassem.
            
Os changelings (os trocados) são geralmente filhos de fadas criados como humanos, ou humanos criados como filhos de fada. Para reconhecer os primeiros, precisaremos nos remeter a sua infância. As lendas contam que os filhos de fadas quando criados por humanos são pessoas que durante a sua infância são verdadeiras pestes ambulantes, crianças insuportáveis, muitas vezes mal-educadas, travessas e impossíveis. Mais tarde quando a adulta, os dons de fada dessa criança podem começar a atuar e ela pode encontrar extrema facilidade em acessar o Outro Mundo, ou mesmo em saber de coisas que teoricamente ela não deveria saber. A pergunta que vem em seguida é como isso é possível? Uma criança fada ser criada como humana, e sua aparência? As lendas também respondem isso. Uma fada tem a habilidade da metamorfose e por isso, pode estar entre nós sem ser percebida ou reconhecida fisicamente, bem como, quando desenvolve essa habilidade, pode mudar de formas de acordo com sua vontade e necessidade.
            
Enfim, esse lado obscuro das fadas nos remetem a ideia de cuidado e respeito. Sabemos que são um povo que gosta de privacidade, liberdade, não gostam de espiões nem de intrusos em seus territórios. Assim sendo, são bem tímidas, impulsivas, arredias, travessas e perigosas. É preciso cautela e muito respeito e ponderação ao lidar com elas. Elas punem ao simples fato de se sentirem ameaçadas, e não costumam ter dó.
            
Contudo, elas também tem o outro lado, o lado benevolente e muito ligado a música (uma de suas dádivas). Elas ajudam àqueles a quem elas se simpatizam ou que demonstram respeito e benevolência para com elas. E podem ser grandes aliadas. Afinal, a elas são dadas mitologicamente o poder sobre o destino e andamento das coisas, principalmente aquelas que envolvem maturação ou sorte. Conquistar uma fada, ter seu auxílio e respeito é sempre algo muito nobre e honrado. Mas em troca você também deverá sempre agradá-las e manter a reciprocidade de “bom vizinho”, e entender suas impulsividades e genialidade difícil. Entretanto, nunca deixe-as sentir que você está sendo caridoso em “pagamento” a um serviço que elas lhe tenham prestado ou prestarão. Elas não são serviçais e detestam se sentir assim, e isso provavelmente as fariam mostrar seu pior lado.
            
Lidar com as fadas não é tarefa fácil, nem algo que se resolva com oferendas. É preciso que elas sintam confiança em suas intenções para se soltarem e mostrarem seus melhores lados, mas uma vez que isso ocorra, a parceria está feita e a simbiose passa a ser algo cotidiano, a qual não se pode descuidar. É recompensador, mas dá trabalho e leva tempo. Isso não significa que você não possa fazer agrados e mostrar seu respeito em horas e datas festivas, mas tenha sempre ciência de quem são as fadas e para além disso, no perigo e no privilégio de mexer com elas. Se você for um bom vizinho em quem elas sintam confiança, além de serem suas maiores e melhores aliadas, te ensinaram saberes preciosos que só elas possuem. Mas lembre-se, é sempre uma simbiose: uma mútua e continua troca, respeitosa e não comerciável.
           
  Os celtas chamavam as fadas de sidh (singular, sidhe, plural). Mas essa palavra nos fala mais de seu local, de suas moradas, ou dos portais até elas nesse mundo, do que das próprias fadas. Sidh, a primeiro momento, significa “colina”, e assim as fadas seriam Daoine Sidh, povo da colina. Contudo o termo pode ser mais amplo, e abrigar lugares sagrados onde as fadas vivem como colinas sagradas, cemitérios, árvores solitárias, círculos naturais (clareiras, círculos de pedras anteriores a chegada de um povo, círculo de cogumelos, enfim qualquer formação circular encontrada na natureza), túmulos antigos, templos, cachoeiras e nascentes, dentre outros. Cabe ressaltar que as fadas não são Deuses, mas em alguns casos podem ser tão poderosos quanto eles. Assim sendo, as lendas nos mostram que o desrespeito às moradas das fadas são sempre rapidamente punidos por elas. Em alguns países como Irlanda, ainda hoje é costume desviar estradas e construções para não destruir árvores ou lugares onde lendas contam da existência das fadas ali.
            
Isso nos remete uma segunda importância, a atenção ao entrar em lugares antigos e, principalmente naturais, devemos ser cautelosos sempre, pedir sempre permissão, e adentrar ao espaço com respeito e honra, nunca se sabe se ali é um sidh e se for, a última coisa que queremos é a vingança de uma fada por desrespeito ao seu espaço.

Uma coisa ainda nos resta falar. Falamos que elas podem ser agressivas e travessas, além de ter um humor negro e abduzirem pessoas e crianças (as vezes objetos e comidas). Alguma forma deve haver de proteção... E há! As lendas descrevem que as fadas não tem tolerância ao metal, sobretudo a prata. Assim sendo, objetos metálicos ou de prata podem servir de amuleto contra as influências ou ataques de uma fada, outro método bom é portar sempre um pouco de aveia consigo, as fadas não só não digerem aveia como não se aproximam quando a sentem por perto; erva-de-são-joão também é usada na proteção contra abdução pelas fadas; era habitual vestir crianças como adultos ou tampar seus rostos com máscaras e panos em noites e dias em que a proximidade com as fadas era maior (disfarçadas as crianças teriam menos chance de serem abduzidas). Contudo, o velho respeito e precaução são sempre as melhores proteções a meu ver. Além de te manterem seguro, ainda te possibilita criar um elo positivo com esses seres. Assim, além das dicas de “bom vizinho” descritas acima, os eufemismos dirigidos às fadas ajudam muito: “povo nobre”, “bom povo”, “os bons vizinhos”. Outros costumes importantes é que, nas noites em que o véu está mais tênue (Lua Azul e Samhain / Halloween) é costume avisar as fadas sempre que vai esvaziar um recipiente de água ou jogar algo no chão e afins, para evitar que as acerte e cative seu desejo de vingança...

Por fim, ao falar de fadas também falamos dos Espíritos Guardiões. Esses são seres ou espíritos mágicos – muitos deles são fadas – que guardam lugares e espaços. Acredita-se que todo local, principalmente natural ou sagrado, tenha o seu. Assim como as fadas, de seu humor e respeito dependem a (boa) estadia da pessoa naquele local. Muitas vezes, mais de um espírito podem habitar ou guardar um determinado lugar, mas eles sempre estão de olho e nada os escapa. Por isso, era um costume comum dos celtas também cultuá-los e criar sempre laços respeitosos com eles, de onde, quantos e como quer que eles fossem. Assim sendo, a dica é: nunca entre em algum território (mesmo um seu habitual) sem prestar respeito e honras ao guardião do local, bem como sem pedir sua permissão. Principalmente se esse local é sagrado, natural e/ou desconhecido. Você depende do humor, boa vontade e acolhimento desse espírito para ter uma boa e saudável estada, onde quer que seja; ou para manter um local sagrado seguro e apto para seu uso.


(também baseado na palestra de Rafael Corr no VI EBDRC, Curitiba / PR – Brasil – 2015)

Boas datas para cultuar e se aproximar das fadas:
LithaLua Azul e Samhain / Halloween (cuidado com esse dia, elas fica bem soltas e travessas).

Por Ávillys d'Avalon.